Le ciel et la mer dans diverses nuances de bleu


The distance is blue
and in my memory
there is also blue
a sky full of your presence
and your absence
on the side window
of your bedroom

There is a blue
that separates us
through tears, songs,
smiles
and this love we left
naked in a river
- my heart -
which went through
pink granite trails
chasing the blue
to find your sea
telling me adieu

And in the end
la mer et le ciel

Everything inside me is bleu

Variações sobre My Favorite Things

                                                    Para Manu G.

um beijo
(all of you)
a tua sede
um groove

um contrabaixo
um improviso
uma atitude

and your fingering
in a sentimental mood

amor perfeito / contact


não saber
do teu olhar sobre as flores
sobre as cores e suas metáforas

não saber mais
de tuas músicas e dos teus dedos
contemporâneos

não saber de nada disso
e ainda assim ler teus sentidos

de longe

[Adrianna Coelho]


«contact»

.................... not knowing
.................... the dance of your fingers 
.................... over the keys, their touch

.................... not knowing yet
.................... about my sounds in your dreams
.................... and still weaving their colours

.................... without hesitation

.................... not knowing none of this
.................... and yet feeling you

.................... close

[Poem by Stéphane L.]

lumiar



as-pirava
noites lúdicas
e gostava de brasas
incandescências
estrelas
e vaga-lumes

encostava em mim
feito lagarta
de um jeito
que me tinha ardente
e ins-pirada

sussurava segredos
de cigarras
me arrepiava
e sus-pirava

permanecendo
ávido à flor
da minha pele
que trans-pirava
água-viva
e gozava

e amava aquela piração

contexto



recita tuas águas
 e brasas
e te condenso

nos meandros
contornos e entremeios
te margeio

em teus vales
horizontes e montanhas
desaprumo

só em teus ventos
me refaço
 duna

 

silencio



e raramente em mim
- concha adversa -
me fecho nessa mudez
que pesca
o verso


aspectos secretos de um ritual



me despe às cegas horas
do dia
e o vidro do relógio
arranha tanto quanto
me acariciam as tardes
de oásis

nunca inteiro quase se
faz felino e me acaricia
tanto quanto arranha
a minha vida

e despede-se às claras horas
do dia

recíproca


de repente assustam-me
os teus destroços abandonados
à superfície dos meus olhos
rasos de água


vitralidade




tuas cinzas
areia e sais
unidos à minha fragilidade 

improvável engano mesopotâmio
em meus imprevistos
vitrificados

nas tuas mãos de oleiro
meu corpo moldado
em complexos ruídos

presos em tuas tramas de cobre
meus reflexos
derretidos

e o momento inexato
em que me entornas
teu líquido

é aquele em que me acreditas
na impossibilidade
do vidro


espectro




aquelas noites não
nos deixaram
para trás
mas sozinhos

sem os silêncios
comuns às estrelas
e aos lírios

e com todas
as minhas cores
misturadas aos teus
litígios


solstício


« a utopia está lá no horizonte »
                       eduardo galeano



prendo-me ao que se move
para retirar da dor
a monotonia

o que de mim se afasta
ou cai como fruto
ou flor


   por isso deixo-me
   levar a noite
   dentro

   que meus poemas
   são feitos de outonos
   memórias
   e esquecimentos


perfil



na parede morta
minha natureza toda
sem assinatura

saturada de azul
de um quase nu
vinho
púrpura
magenta

e de teu sol oblíquo
a emoldurar meu rosto
respingado de tinta



ocaso



ainda ouço
tuas conversas com
sombras e brumas

teus restos
de noites e teus dons
para abismos
em minhas comoções
 telúricas

teus silêncios ancorando
meus vazios e a
tua falta

ainda te espero
naquele cais que nos invade
a alma


reversos




meus tormentos ainda
persistem como peixes
   que sobem um rio

que não sabem dos
horizontes e da aflição
    nos portos

e não se importam
com o inaceitável sentido
   de todas  as dores

ou com a erosão
em  meus olhos embaçados
   de saudades

e no meio de tudo
continuo detenta
de cada uma de suas
   margens


risco



    arrisca em mim
    o que quebre
    o que grite

    o que desaninhe
    meu tigre e meu
        riso

    arranca o fôlego
        a raiz
            o juízo

    e deixa que o resto
        se precipite
   


legado



achei o jeito
de anoitecer os silêncios
 cheia de
    luas e lenhas

cais
naufrágios e dores

     teu esboço e tua
 ausência


fragmentos




esse olhar mudo
     de retrato

um muro branco de dentes
flagrado como se fosse
     um crime

o gesto despojado
de chaves e de noites
    sem eclipses

esse jeito de ser
tempestade
    e nenhum dique