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solstício


« a utopia está lá no horizonte »
                       eduardo galeano



prendo-me ao que se move
para retirar da dor
a monotonia

o que de mim se afasta
ou cai como fruto
ou flor


   por isso deixo-me
   levar a noite
   dentro

   que meus poemas
   são feitos de outonos
   memórias
   e esquecimentos


afônica



escrevo no ato
solidário à garganta


escrevo sobre ocasos
inflamados e pungentes
em desacato
ao grito que não veio


escrevo ao acaso
até o fim da linha
até o ponto
em que me encontro
febril



para uma confissão

para Mercedes Lorenzo


que a palavra secreta se apresente,
aquela que me olha de longe
que me entende e me espreita,
por onde quer que eu ande...


aquela que sabe dos meus horários
e de tudo que coloco sob pedras,
debaixo do tapete, atrás das portas
e dos meus gestos corpóreos


aquela que encontra minhas identidades
guardadas a sete chaves na gaveta
cheia de poemas sibilinos


- a palavra-chave, testemunha,
aquela que me aponta, me acusa...


quando ela se declarar,
eu assino.



pálida



meus versos são vermelhos
e me chegam repentinos
aos olhos, às mãos, à boca


extenuam num instante
meus dilatados sentidos
e me absorvem inteira
ou despedaçada



mergulho



na hora esquiva
das águas apurando
dias em ilhas alheias
ao sal me conservo
dentro dos ossos
experimentando
o nascimento de asas
translúcidas
e voo pássaro


o bico aponta
meu peito
e ronda meu corpo
mergulhado
em acasos
de peixes e sargaços


e eu
raramente em mim
concha adversa
me fecho
nessa mudez
que pesca o verso






* Publicado no blog Novidades & Velharias

acasos



minhas palavras
não sabem destinos


encontro o poema
a duras penas
quando adivinho
nas linhas da mão


a minha imagem
impossível



bichos flores e libido



tenho a fauna
e a flora
em minhas palavras
e uma expectativa vegetal
de brisas e orvalhos
e sons de asas


línguas
coisas escorregadias
e úmidas
limos e lagartos
absortos ao sol


e num poema
desejos desfolhados
e agudos apetites
unhas-de-gato
sobem agarrados
às minhas pernas


[e eu já hera]






* Publicado no Blog de 7 Cabeças

síndrome



dentro de cada poema
tenho sintomas
medos e arremessos
coragens e tremores
um riso e um choro
que me arranham
ou anestesiam
e a palavra suada
que me dilata as pupilas



sinapse



desde então a palavra
percorre minha medula
e se ramifica em versos
e signos


revelo meus impulsos
e caligrafias distantes
atravessam meus abismos


[um poema me arrepia]



sensação



num poema
abrem-se em mim
todas as ânsias
como se fossem asas
batendo alucinadamente
dentro do meu peito



okavango



tudo em meu poema
desce montanhas
com sede de sol e de sal
e corre líquido sonhando
com a invasão ocre
do encontro pelo rio


tudo em meu poema
alaga e depois seca
em minha floresta
de papiros
enquanto escrevo
sobre meus desertos
e minhas águas





* Diálogo de Paulo de Carvalho com o poema Compondo sobre águas
* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2581

a lâmina



o abstrato impossível
constantemente renovado
diante dos meus olhos
por onde as águas
correm junto ao meio
fio da lâmina
das palavras
que penetram
afiadas e iluminam
os vermelhos versos
contidos no meu corpo



enchente



suo a densidade
dos meus dias
num poema caudaloso
que transborda aqui dentro
e me inunda de vozes
e de silêncios






* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2452

arbórea



incorporei a poesia
arboreamente


incorpodespi o concreto
as paredes e o cimento
dos entendimentos


e mano a mano com manoel
fiz de mim maria-de-barro
construindo minha casa
de sensibilidades
nessa que me tornei
árvore



até o fim



escrevo apesar das buzinas
do gás carbônico
do meu caminho sem árvores
das centenas de grades
por todos os lados

escrevo apesar de tudo
por tudo ou por nada
até que anoiteça de vez
e a poesia se apague
como se houvesse de repente
um blackout