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amor perfeito / contact


não saber
do teu olhar sobre as flores
sobre as cores e suas metáforas

não saber mais
de tuas músicas e dos teus dedos
contemporâneos

não saber de nada disso
e ainda assim ler teus sentidos

de longe

[Adrianna Coelho]


«contact»

.................... not knowing
.................... the dance of your fingers 
.................... over the keys, their touch

.................... not knowing yet
.................... about my sounds in your dreams
.................... and still weaving their colours

.................... without hesitation

.................... not knowing none of this
.................... and yet feeling you

.................... close

[Poem by Stéphane L.]

contexto



recita tuas águas
 e brasas
e te condenso

nos meandros
contornos e entremeios
te margeio

em teus vales
horizontes e montanhas
desaprumo

só em teus ventos
me refaço
 duna

 

ocaso



ainda ouço
tuas conversas com
sombras e brumas

teus restos
de noites e teus dons
para abismos
em minhas comoções
 telúricas

teus silêncios ancorando
meus vazios e a
tua falta

ainda te espero
naquele cais que nos invade
a alma


fugidio



no meu percurso
também há a delicadeza
 de nuvens ilegíveis

 e onde meu desejo
se investiga

há lonjuras
          mãos
desvãos
           rubis

e o ar escasso
entre o não e um profundo
   sim


miragem



não sei se sou voo
ou vertigem


asa estrangeira sobre teus versos
avisto o mar imanente
e mergulho


esbarro no último ponto
de tuas reticências
e nem sei se te encontro



gitana



meus passos não te serão
leves
nem meus saltos
nem mesmo quando levito,
ou ergo as mãos, danço e canto
sem acompanhamento


pelo ângulo certo, porém,
verás meu coração nos abetos,
os pássaros rasgarem azuis
e amanhecerem os meus beijos
vermelhos



no campo mimado de um poeta elétrico



CAMPOS MIMADOS


poemas fora de
ardem
para Adrianna Coelho



* * *

pela tua poesia andei
agora pise com cuidado:
plantei para ti
campos
mimados.

* * *

o sol alpino
na cabeça
o frio nada valha.

* * *

nenhum verso
seguro.


solto:


palavras




explodem no ar!


* * *

o sol
laço
quando
sou só


luço.


* * *

quero terminar essa poesia tonta
mas dizer não é tão ruim
que quando me dou conta
estou perto do sim.

* * *

amor

o gavião cai
por águia
abaixo.




carito



Um poema de Georgio Rios

[Georgio Rios, inspirado no poema com os pés no chão]


Um pedaço de mim
é tudo


e em nada me dispersa
hei de dissipar as luzes
e novas luzes trazer
desta jornada.


hei de ficar
onde caminho encontrar
onde houver
tal caminho


aninharei meus pés
nas veredas
e nestas sendas
aquietarei em silêncio
escutando as águas
que vertem do mais
secreto caminho
da mais profunda vereda
e caminhando ouvir a música
dos olhos distantes



compondo sobre águas

[Paulo de Carvalho, sobre o poema okavango]


rio fêmea


quando fêmea;
águas e areias.


sou-te éden,
gênesis fruto.
o furto e
a fome


nomes de ti.


sacra ou profana, quem me sabe as sedes dos mares?
sei-te a carne, os sopros e teus verbos.


quando fêmea;
sou-te a folha,
papiro e tintas.


inversos de mim


oferto-me por areias aos êxodos de tuas águas;
consagro-me! aquela que te sabe os nomes nos sonos.


um poema de mim,
nomeia-te!






* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2581

olé



Ângulos vermelhos



Ângulos vermelhos
destacam o solo
flamenco do
violão,


o timbre do
flamenco.


E a bailarina está de
costas, a espanhola
ouvindo os arpejos.


Lá fora, voam os

passarinhos, em

ângulo

reto.



Marcelo Novaes






gitana



meus passos não te serão

leves

nem meus saltos


nem mesmo quando levito,

ou ergo as mãos, danço e canto

sem acompanhamento


pelo ângulo certo, porém,

verás meu coração nos abetos,

os pássaros rasgarem azuis

e amanhecerem os meus beijos

vermelhos




Adrianna Coelho




sem ressalvas



eu não sabia que meu cabelo era agreste
e que refletiríamos em nossas íris
um ao outro – sobre o carpete –
e as cores dos crepúsculos
e das auroras...


nem sabia que poderia ter por horas
essa dança de águas nos olhos,
e esse sorriso na memória dos músculos
que me douraram a pele em nossa trança
de salivas e de silêncios...


e que me tornaria
ao mesmo tempo leve e densa,
com você profundamente dentro,
[em presença e ausência]
inteiro, unânime e múltiplo.






* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2558

contexto sentido

Para Lau Siqueira


"Frágil, contém
Poesia
Frágil, contem"
Lau Siqueira, em "Texto Sentido"



são poucos os pavios
que me acendem


somente as palavras
me incendeiam a língua
cabelo unhas pele
e dentes


arrisco-me em cada página
com a ponta dos dedos
como se riscasse
um fósforo
e lanço-me em chamas


nas contexturas de fogo
do texto sentido
a poesia inflama


[frágil sou eu!]



vinho a dois



hoje meu olhar embriagado
desenha um destino
e bebe o vinho que torna
a palavra desenfreada


na sua boca cheia de luz
um vermelho azul
sonha-se em imagens cristalinas


sinto os elos sutis
que nos ligam a esse mundo
desnorteado por paralelas linhas


não me importo de seguir miragens
porque é muito quente esse sentir
e é muita sede para matar
na sua rede ou na minha teia


eu quero rir junto
depois de acordar


[embriagada de baudelaire
e outras insurgências]





okavango



tudo em meu poema
desce montanhas
com sede de sol e de sal
e corre líquido sonhando
com a invasão ocre
do encontro pelo rio


tudo em meu poema
alaga e depois seca
em minha floresta
de papiros
enquanto escrevo
sobre meus desertos
e minhas águas





* Diálogo de Paulo de Carvalho com o poema Compondo sobre águas
* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2581

o peso




demorado, pessoal e intransferível
desmoronamento
às seis da manhã quando tudo morre
não há mais restos sobre a pia
apenas um imenso branco
manchado
de minha máscara derretida
que escorre pelo ralo
livrando-me do que sou


às seis da manhã ainda não
acordei de um sonho ou pesadelo
sou apenas delírio
um corpo astral em declínio
há um peso cimento em meus ossos
há um todo que eu não sou
há um todo que não sei ver


às seis quando eu furo meus olhos
às seis quando todos os artifícios falham
minha eterna negação
chega, espelho: não quero saber
se há alguém mais






* Poema escrito com Diego Paleólogo

verona



céu à boca aberta


sorrisos de luas e estrelas
refletem-me miranda


meus precipícios ainda gravitam
em tua órbita de palavras


outras intenções



ele
é do tipo que carrega flores na boca
e rega palavras só pelo prazer
de me ver perdida no jardim
em que sonho nua os sonhos dele

ele
me acende o olhar de menina
em plena luz do dia
e me faz pensar nas infinitas melodias
das quedas de cachoeiras
e em pés descalços no meio do mato

ele
enche meu olhar de encanto
de vinho, de avidez
e de malícias
e me descobre sem nenhuma disciplina
quando insinuo dias quentes de verão
e adivinho sabores e cheiros

ele
tem esse mistério e me fascina
mas eu quero os outros nele
eu quero muito mais

e
ele
é muito!