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simples assim



eu queria uma palavra
apenas uma


e meus olhos te mostrariam
dois sóis


[um em cada pupila]


por trás do inevitável arco-íris
eu te daria um sorriso


só isso
e já me clareava o dia





* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2529

renascença



sob a chuva meus olhos
revelam a luz nas cores
das horas lúcidas

reflexos de deuses estrondosos
em minhas memórias

livres de marquises
meus pés dissipam o asfalto
e a nostalgia ressurge
ríspida e imprevista
em incessantes fluxos
na paisagem úmida

improvisada

a vida vaza nas esquinas
de um cruzamento abstrato
constantemente renovado
pelas águas que correm
junto ao meio fio da lâmina
das minhas palavras
e de nossos atos

e nesse ar concreto
onde me encontro
tudo sufoca
tudo é ralo

há dramas contidos no meu corpo
derramado e exposto
na calçada




Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2802.

cálice

Para Adriana Sunyata


da nossa entrega cotidiana
àqueles deuses embriagados
e aos casulos de borboletas


às folhas que caíram
e aos raios de luz
na penumbra dos sonhos


às nossas intenções aladas
e a tudo que era aveludado
vermelho e sanguíneo
como mosto
ou como vinho


só me resta um vazio
num cálice cheio
de poesias caladas




* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2825

vertigem



a ausência da rosa na boca
o silêncio alarmado
de quem sabe espinhos
e idas e beijos
e quases
e esses vermelhos
que te inflamam
toda
de abismos
e quedas




* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2729

inconclusiva



nem sempre é sobre o olhar
que me atropela e não vê
as viagens e os trens
em minha cabeça


[ou o chão que falta
sob meus tremores]


nem sempre é sobre um par
de tênis preso nos fios elétricos
de onde pombos voam


nem sempre é sobre o que sei






* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2667

compondo sobre águas

[Paulo de Carvalho, sobre o poema okavango]


rio fêmea


quando fêmea;
águas e areias.


sou-te éden,
gênesis fruto.
o furto e
a fome


nomes de ti.


sacra ou profana, quem me sabe as sedes dos mares?
sei-te a carne, os sopros e teus verbos.


quando fêmea;
sou-te a folha,
papiro e tintas.


inversos de mim


oferto-me por areias aos êxodos de tuas águas;
consagro-me! aquela que te sabe os nomes nos sonos.


um poema de mim,
nomeia-te!






* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2581

para uma dança



gostaria de um homem verde
menino ainda
ou um homem verde e rosa
de alma mangueira


um homem que me tirasse
para as danças da chuva e do sol
e que gostasse de natureza


[mas tanto o sol como a chuva
mesmo sem esse homem
chegam a mim com tamanha beleza]


gostaria de um homem
para dançar
apenas






* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2603

***** de língua: lambendo a poesia de mercedes lorenzo



Shlept



a língua bifurcada da serpente
prova dois gostos?
o que acontece
se eu lamber teu gesto?
gosto do susto
de pensar palavras salivas
incisivas in.surgentes
carnívoras
isso vai me inflorescendo
o resto



Mercedes Lorenzo





minha voz cariocando a shlept da mê:


* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2564

sem ressalvas



eu não sabia que meu cabelo era agreste
e que refletiríamos em nossas íris
um ao outro – sobre o carpete –
e as cores dos crepúsculos
e das auroras...


nem sabia que poderia ter por horas
essa dança de águas nos olhos,
e esse sorriso na memória dos músculos
que me douraram a pele em nossa trança
de salivas e de silêncios...


e que me tornaria
ao mesmo tempo leve e densa,
com você profundamente dentro,
[em presença e ausência]
inteiro, unânime e múltiplo.






* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2558

nimbo



na minha terra
encharcada


há resquícios de chuva
nas fendas, pétalas
e corolas


até quando as gotas
cairão das folhas
e as pedras ficarão
úmidas?


quando é que a palavra
estia?






* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2547

Olhos como mel

[Marcelo Novaes]


Você não sabia que esses olhos
eram meus, eram claros, eram mel.
Nem que a voz soava violoncelo,
próximo ao Natal.


E que eu deixaria seu corpo doído
por uma semana, na única noite de cio
passada no chão.


Você não sabia que, no meu quarto,
a luz tremeluzia. E que meu respirar
comportava tal silêncio: desses que só
pode dar água corrente, o sol nascente,
uma manhã no Chile.


Você não sabia que cabia no existir
tal densidade: bem maior que o tônus
muscular colado aos ossos. Por você
tudo apalpado. E nem conhecia o amor
que era canto e língua procurando cada
canto e tudo que os outros haviam deixado
intacto. Amar amor gentil, antes e depois do
ato.


Você não sabia o outro nome, pelo qual
te chamaria, com insistência, a certa altura:
nome lindo de se colocar aqui agora. Aquele
que um dia - intuo muito bem porque -, você
enterrara. Mas eu te sei nome e sobrenome,
também lá e então, e desde sempre. E saberei
cem jeitos diferentes de te chamar, Adrianna.




* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2558