camelos e outras esferas (medo medo medo mídia mídia)
ali mentes alinham-se
e alimentam-se
de contingentes rumores
de contidas gentes que vivem sós
(agrupadamente)
tabloides são todos
que todos se mentem sob as antenas
sobre nossas cabeças
e sobre o cimento incerto
alguma coisa anda desordenadamente
dando de comer às feras
e nesse ato de DomEsticar
]eENCOLHERoQueSomos[
maldosamente molda-nos a mente
e a noosfera
e nos ferirá um dia
Brutal Mente
onírico
era um homem com asas que tinha esses cachos
na cabeça que as borboletas gostam e uns silêncios
feitos de trevos e feitiços e um cheiro de anis
com hortelã e baunilha e era ele quem penetrava
em meus sonhos com flautas e gaitas e saxofones
e me deitava em tapetes mágicos orientando meus sentidos
e me envolvia num latente surrealismo com alecrim
e mormaços e incensos numa mistura orgânica de dunas
e cataventos e caçava minhas palavras em açudes e salinas
com o corpo agridoce ou melado e com sua boca que tinha
contato com a cana e me fazia magenta e absurdamente
doce quando mesclava meu vestido vermelho
com algum verde de grama
à sombra de um impressionismo me revelava entre algumas
folhas de parreira e me falava de camas e taturanas e pimentas
e caquis e chocolates e mangas e outras coisas ordinárias
que eu imaginava em paraisos lúdicos cheios de deuses escarlates
e vagabundos enquanto ele refletia de improviso a minh’alma
misturada ao barro e ao fogo debaixo de um toró repentino
e aquilo nos fazia rir com um lirismo próximo à loucura
de comer certas flores exóticas e de fazer outros rituais
para os instantes que nos habitavam os precipícios
preferidos e no ponto mais fixo de mim ele circulava felino
sem me deixar a mais inútil alternativa para fugir
e então dançávamos no solo de uma música telúrica
e nos entrelaçávamos alucinados até a memória fugaz
do momento em que abri os olhos e esqueci a poesia
lá onde ele permanece sonhado
somos a bomba (anti-acordo ortográfico)
em idéias teias grassas
nossas palavras arranham aranhas
da língua em estado
de sítio sem árvores
e nos arvoramos pelas raízes
inquietos até tirarmos o chapéu
de aba e poros imaginários
dos homens que comem letras sem sumo
sem cheiro e com sabor artificial
queremos a língua solta
na maior brasilidade de um samba
de fundo de quintal e clementinas
em pagodes de zecas subindo morros
e o fonema pleno e salgado
da brincriação rebelde e desestruturante
provocamos o colapso dos lapsos arcaicos
para que se quebrem os elos que aprisionam
a expressão em anéis
sem os dedos que procuram sentidos
no inexplorado...
[a estética contraditória e misteriosa
a revolução dos neologismos em outros passos]
e nós, os 3 do forte
de uma copacabana estendida por mim
além da baía e de outros horizontes
vamos desafiar todos os erros
para sermos como falamos e somos:
explosivos brasileiros
* "os 3 do forte" é uma referência à Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Os 3: eu, Fernando Cisco Zappa, o poetaço que acredita na luta com as palavras, e Rodrigo M. Freire, o rebelde por natureza, mas grande, grande, grande escritor.
Olhos como mel
[Marcelo Novaes]
Você não sabia que esses olhos
eram meus, eram claros, eram mel.
Nem que a voz soava violoncelo,
próximo ao Natal.
E que eu deixaria seu corpo doído
por uma semana, na única noite de cio
passada no chão.
Você não sabia que, no meu quarto,
a luz tremeluzia. E que meu respirar
comportava tal silêncio: desses que só
pode dar água corrente, o sol nascente,
uma manhã no Chile.
Você não sabia que cabia no existir
tal densidade: bem maior que o tônus
muscular colado aos ossos. Por você
tudo apalpado. E nem conhecia o amor
que era canto e língua procurando cada
canto e tudo que os outros haviam deixado
intacto. Amar amor gentil, antes e depois do
ato.
Você não sabia o outro nome, pelo qual
te chamaria, com insistência, a certa altura:
nome lindo de se colocar aqui agora. Aquele
que um dia - intuo muito bem porque -, você
enterrara. Mas eu te sei nome e sobrenome,
também lá e então, e desde sempre. E saberei
cem jeitos diferentes de te chamar, Adrianna.
* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2558
Você não sabia que esses olhos
eram meus, eram claros, eram mel.
Nem que a voz soava violoncelo,
próximo ao Natal.
E que eu deixaria seu corpo doído
por uma semana, na única noite de cio
passada no chão.
Você não sabia que, no meu quarto,
a luz tremeluzia. E que meu respirar
comportava tal silêncio: desses que só
pode dar água corrente, o sol nascente,
uma manhã no Chile.
Você não sabia que cabia no existir
tal densidade: bem maior que o tônus
muscular colado aos ossos. Por você
tudo apalpado. E nem conhecia o amor
que era canto e língua procurando cada
canto e tudo que os outros haviam deixado
intacto. Amar amor gentil, antes e depois do
ato.
Você não sabia o outro nome, pelo qual
te chamaria, com insistência, a certa altura:
nome lindo de se colocar aqui agora. Aquele
que um dia - intuo muito bem porque -, você
enterrara. Mas eu te sei nome e sobrenome,
também lá e então, e desde sempre. E saberei
cem jeitos diferentes de te chamar, Adrianna.
* Publicado no Balaio Porreta 1986 nº 2558
incômodo
nenhuma palavra
pairando sobre minha cabeça
nenhum poema
[apenas pianos invisíveis]
nem sei se esse vazio
existe, afinal,
mas me devasta
o gesto dele
A faca não corta o fogo; mas arrisca
Para Adrianna Coelho
Cortemos apenas um gesto:
a mão perfeita, por demais
perfeita. Cortemos o
atrevimento de se ser
perfeito; o mais,
deixemos quieto.
Cortemos as quimeras
as tessituras por demais
simétricas, os contextos
e sólidas estruturas, e
deixemos o andar manco
o verso manco e branco,
o olhar reverso o breu e o
branco, quando se dão no
palco.
Cortemos apenas um gesto
com faca afiada: a frase de
fogo em sublime metamorfose,
a frase que não se apaga nem na
neve; a metamorfrase na porta do
templo - de Zeus, de Hera -, que
também é
nave.
Marcelo Novaes
contexto sentido
Para Lau Siqueira
são poucos os pavios
que me acendem
somente as palavras
me incendeiam a língua
cabelo unhas pele
e dentes
arrisco-me em cada página
com a ponta dos dedos
como se riscasse
um fósforo
e lanço-me em chamas
nas contexturas de fogo
do texto sentido
a poesia inflama
[frágil sou eu!]
são poucos os pavios
que me acendem
somente as palavras
me incendeiam a língua
cabelo unhas pele
e dentes
arrisco-me em cada página
com a ponta dos dedos
como se riscasse
um fósforo
e lanço-me em chamas
nas contexturas de fogo
do texto sentido
a poesia inflama
[frágil sou eu!]
acasos
minhas palavras
não sabem destinos
encontro o poema
a duras penas
quando adivinho
nas linhas da mão
a minha imagem
impossível
bichos flores e libido
tenho a fauna
e a flora
em minhas palavras
e uma expectativa vegetal
de brisas e orvalhos
e sons de asas
línguas
coisas escorregadias
e úmidas
limos e lagartos
absortos ao sol
e num poema
desejos desfolhados
e agudos apetites
unhas-de-gato
sobem agarrados
às minhas pernas
[e eu já hera]
* Publicado no Blog de 7 Cabeças
entre.lace.me
esses silêncios
sob meus dedos
não explicam o motivo
traçado por essas linhas
não destramam as palavras
nem desfiam os versos
e ainda que tudo trema
refaço meus passos
sobre o teu chão
de poemas
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