era um homem com asas que tinha esses
cachosna cabeça que as borboletas gostam e uns silêncios
feitos de trevos e feitiços e um cheiro de anis
com hortelã e baunilha e era ele quem penetrava
em meus sonhos com flautas e gaitas e saxofones
e me deitava em tapetes mágicos orientando meus sentidos
e me envolvia num latente surrealismo com alecrim
e mormaços e incensos numa mistura orgânica de dunas
e cataventos e caçava minhas palavras em açudes e salinas
com o corpo agridoce ou melado e com sua boca que tinha
contato com a cana e me fazia magenta e absurdamente
doce quando mesclava meu vestido vermelho
com algum verde de grama
à sombra de um impressionismo me revelava entre algumas
folhas de parreira e me falava de camas e taturanas e pimentas
e caquis e chocolates e mangas e outras coisas ordinárias
que eu imaginava em paraisos lúdicos cheios de deuses escarlates
e vagabundos enquanto ele refletia de improviso a minh’alma
misturada ao barro e ao fogo debaixo de um toró repentino
e aquilo nos fazia rir com um lirismo próximo à loucura
de comer certas flores exóticas e de fazer outros rituais
para os instantes que nos habitavam os precipícios
preferidos e no ponto mais fixo de mim ele circulava felino
sem me deixar a mais inútil alternativa para fugir
e então dançávamos no solo de uma música telúrica
e nos entrelaçávamos alucinados até a memória fugaz
do momento em que abri os olhos e esqueci a poesia
lá onde ele permanece sonhado